PeerClub - Open Community

 View Only
  • 1.  Pobreza: o silêncio estrutural que nos define.

    Posted 19-10-2025 12:41
      |   view attached

    Pobreza: o silêncio estrutural que nos define.

    Assinalar o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza é, em Portugal, um exercício de paradoxos. Celebramos a descida da taxa de risco de pobreza ou exclusão social ao nível mais baixo desde 2015, mas continuamos a habitar um país onde 1,8 milhões de pessoas vivem com menos de 632 euros por mês. A estatística suaviza, mas não redime. A pobreza não é um número, é um silêncio estrutural que atravessa gerações, geografias e políticas públicas com a persistência de quem já não precisa gritar para ser ignorado.

    O relatório da Pordata revela que os idosos são hoje o grupo mais vulnerável. Um em cada cinco vive sozinho, com rendimentos que não garantem dignidade. O envelhecimento, que deveria ser sinónimo de descanso e reconhecimento, tornou-se sinónimo de abandono. E não é apenas a velhice que empobrece: as famílias monoparentais, os desempregados, os que vivem sós, todos são rostos de uma exclusão que se repete como herança.

    A geografia da pobreza também fala alto. Enquanto Oeiras ostenta o rendimento médio mais elevado do país, a região do Tâmega, os Açores e a península de Setúbal revelam feridas abertas. A desigualdade territorial não é apenas injusta: é corrosiva. Ela mina o pacto social, alimenta ressentimentos e transforma o mapa nacional num espelho partido.

    Mais grave ainda é o que não muda. O número absoluto de pessoas em risco de pobreza mantém-se acima dos dois milhões. A pobreza, portanto, não é um acidente, é estrutural. Ela alimenta-se da normalização. Quando 56% dos pobres são mulheres, quando os mais frágeis continuam a ser os mais esquecidos, quando o país ocupa a 19ª posição no rendimento mediano da UE, não estamos perante uma falha, estamos perante uma escolha.

    Erradicar a pobreza exige mais do que relatórios e dias internacionais. Exige coragem política, justiça fiscal, investimento em educação, saúde e habitação. Exige, sobretudo, uma mudança de olhar: deixar de ver os pobres como estatística e começar a vê-los como espelho. A pobreza não é deles, é nossa e enquanto ela persistir, nenhum país será verdadeiramente desenvolvido, será apenas um lugar onde alguns vivem e muitos sobrevivem.



    ------------------------------
    Paulo Costa
    Humlead Innovation Network
    ------------------------------


  • 2.  RE: Pobreza: o silêncio estrutural que nos define.

    Posted 27-10-2025 09:19

    Dear Paulo,

    Thank you for such an interesting insight (I'm replying in English because the open community is international).

    I totally share these concerns, same as you do, but one thing I believe is that government structures will never be enough to solve or ease these problems.

    I strongly believe that communities are the foundational structure to address these issues and we have to find ways of coming together at a smaller local level to tackle each particular situation and create the communication pathways to get energy (money, time, opportunities) from outside structures (local or countrywide).

    Let's have more talks about this and maybe we can find ways to collaborate and act on it.

    Happy to connect with you.



    ------------------------------
    João Caldas
    Managing Partner
    Innovunity
    +351965351841
    ------------------------------