Pobreza: o silêncio estrutural que nos define.
Assinalar o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza é, em Portugal, um exercício de paradoxos. Celebramos a descida da taxa de risco de pobreza ou exclusão social ao nível mais baixo desde 2015, mas continuamos a habitar um país onde 1,8 milhões de pessoas vivem com menos de 632 euros por mês. A estatística suaviza, mas não redime. A pobreza não é um número, é um silêncio estrutural que atravessa gerações, geografias e políticas públicas com a persistência de quem já não precisa gritar para ser ignorado.
O relatório da Pordata revela que os idosos são hoje o grupo mais vulnerável. Um em cada cinco vive sozinho, com rendimentos que não garantem dignidade. O envelhecimento, que deveria ser sinónimo de descanso e reconhecimento, tornou-se sinónimo de abandono. E não é apenas a velhice que empobrece: as famílias monoparentais, os desempregados, os que vivem sós, todos são rostos de uma exclusão que se repete como herança.
A geografia da pobreza também fala alto. Enquanto Oeiras ostenta o rendimento médio mais elevado do país, a região do Tâmega, os Açores e a península de Setúbal revelam feridas abertas. A desigualdade territorial não é apenas injusta: é corrosiva. Ela mina o pacto social, alimenta ressentimentos e transforma o mapa nacional num espelho partido.
Mais grave ainda é o que não muda. O número absoluto de pessoas em risco de pobreza mantém-se acima dos dois milhões. A pobreza, portanto, não é um acidente, é estrutural. Ela alimenta-se da normalização. Quando 56% dos pobres são mulheres, quando os mais frágeis continuam a ser os mais esquecidos, quando o país ocupa a 19ª posição no rendimento mediano da UE, não estamos perante uma falha, estamos perante uma escolha.
Erradicar a pobreza exige mais do que relatórios e dias internacionais. Exige coragem política, justiça fiscal, investimento em educação, saúde e habitação. Exige, sobretudo, uma mudança de olhar: deixar de ver os pobres como estatística e começar a vê-los como espelho. A pobreza não é deles, é nossa e enquanto ela persistir, nenhum país será verdadeiramente desenvolvido, será apenas um lugar onde alguns vivem e muitos sobrevivem.
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Paulo Costa
Humlead Innovation Network
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